sábado, 24 de janeiro de 2026

Pés na terra


Choveu a semana toda na roça. Daquelas chuvas que não pedem licença, não fazem barulho e já vão molhando o chão por dentro. A terra virou lama viva, fria, dessas que chamam os pés para passear. Fui. Caminhei onde o mato cresce com pressa. Resolvi tirar a sandália. Tirei. Andar descalça ali não é descuido, é prazer.

A lama se espreme entre os dedos e parece ajeitar o corpo por dentro. É uma terapia silenciosa. Uma energia que começa no chão, sobe pelas pernas, atravessa a coluna e chega à cabeça alinhando tudo, como quem põe a casa em ordem. O sistema nervoso descansa quando o corpo lembra de onde veio. É terapia, é relaxamento.

É bom seguir trilhas que não foram feitas por gente. As de animal são certeiras, respeitam tudo: passam rente à cerca, desviam os obstáculos. Instinto puro. Caminho por elas encantada com o trajeto, confiando mais no chão do que em mim. Vou assim, em meio ao mato molhado, me deliciando com a lama.

Com os pés descalços, vou colher frutas da estação. A sandália fica para trás, atolada na lama, entregue ao acaso. Mas não perco o genipapo. Nem o jamelão. Algumas perdas são pequenas e necessárias quando o ganho vem com cheiro de terra.

Volto com os pés sujos, o corpo leve e a alma lavada. A chuva, os pés na lama, foi serviço completo: alinhou o corpo e a mente. Foi de adormecer.

br_seixas9


Pés no chão não é só estar descalça é estar inteira.

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