A menina que não tinha fotografias
Acreditem, esta é a única foto que tenho da minha infância! Ela fica guardada num porta-retrato, com muito carinho.
Às vezes, fico pensando: será que a falta de fotografias e de registros da infância despertou em mim o desejo de fotografar e registrar acontecimentos da vida? Será que é por isso que gosto tanto de guardar coisas, lembranças, contar histórias e até manter um blog pessoal?
Não sei. São perguntas que me faço enquanto olho para essa menina da fotografia.
Talvez, sem perceber, eu tenha aprendido a importância de guardar o que o tempo leva embora e não devolve. Afinal, o tempo passa, mas os registros nos permitem revisitar a vida. São memórias, vivências, identidade e vontade de guardar a própria história. E hoje eu guardo aquilo que poderia ter sido guardado da minha infância.
Será que faço tantos registros hoje porque gostaria de ter as fotografias de ontem?
Não olho para a infância com tristeza, mas com curiosidade. Foi um tempo feliz, de muita diversão e brincadeiras, do qual guardo recordações carinhosas. Se pudesse, gostaria de abrir uma janelinha para o passado e rever aquilo que ficou fora do alcance da memória. Não é saudade de algo perdido. É curiosidade sobre a própria história.
Às vezes, tento voltar aos meus três ou quatro anos e encontro muitos vazios. Não consigo recuperar histórias daquela época. Sei que a memória da infância guarda algumas cenas, lugares e acontecimentos, mas não uma sequência contínua dos anos vividos. Também pudera! A memória não é um arquivo organizado por datas. Às vezes, um detalhe permanece vivo, como o cheiro do plástico da lancheira azul do jardim de infância, enquanto acontecimentos inteiros escapam. As lembranças chegam como flashes, curtinhas, mas algumas permanecem para sempre.
Fico pensando: se as lembranças pudessem ser despertadas por fotografias, a infância viraria um parque de diversão!
Hoje, com o tempo, tornei-me uma velha mulher que deseja deixar pegadas de sua passagem pelo mundo.
Mas aquela menina da única fotografia continua aqui, dentro de mim.
Berenice Seixas

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