sexta-feira, 27 de março de 2026

A parede de musgo

 

A inspiração é algo que não se pode conter, ela chega a qualquer hora. Hoje, em meio a tijolos, cimento, pedreiros e a obra no quintal, ela logo deu as caras.

Foi só olhar o lodo - o musgo -  e, de repente, fui remetida à infância.

Com o celular em mãos, tirei esta foto. E então, um dom criativo, muito claro, floresceu. A escrita nasceu da imagem, do concreto, do que eu vi e senti. A foto não foi apenas um registro; foi como um gatilho de memória - uma ponte para a imaginação. Acho fascinante esse dom de transformar imagens em palavras, o simples em poesia, de forma tão natural.a
Que bom encontrar ideias no mundo real, no cotidiano, sem precisar inventá-las.

Agora leiam a história:

A Parede de Musgo

No quintal da vovó, havia um telheiro comprido, guardado pela sombra e pela umidade do tempo. As paredes vestiam um verde intenso, quase “aveludado” - era musgo.
E a menina, sua neta, encontrava ali um universo inteiro. Chamava aquilo de lôdo, como quem dá nome ao próprio encantamento. Deslizava o dedo indicador pela parede e, ao toque, soltava-se a camada macia e úmida -  como se a natureza lhe confidenciasse segredos.
Era frio, quase vivo.
Diferente de suas bonecas imóveis, estáticas; aquela parede respondia ao seu toque, como se respirasse junto com ela.
O cheiro era de terra úmida, de frescor antigo, preenchendo suavemente suas narinas.
Ao redor, gatos bonitos e bem cuidados circulavam como companhia silenciosa, e, ao fundo, uma cantoria, a voz doce e singela de uma senhorinha, que bordava o ar com delicadeza.
Tudo ali era sonho. Tudo era invenção.
Na ausência de brinquedos, a menina criava mundos.
Desenhava histórias invisíveis com a ponta do dedo, transformando o simples em mágico.
Hoje, talvez ninguém pense em brincar com musgo.
Mas havia algo naquela parede fria, úmida, aveludada - um convite silencioso à imaginação.
Porque só a infância sabe que o extraordinário mora nas coisas simples, e que um modesto musgo na parede criou mundos que só ela conseguia ver, basta sentir.
25/03/2026

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