domingo, 31 de maio de 2026

A resiliência de uma folha


A Resiliência de uma Folha

Era apenas algo desprezível aos olhos de muitos. O vento a arremessava de um lado para o outro. Os veículos a empurravam sempre para a margem do caminho. Os transeuntes a chutavam para os cantos como coisa insignificante. Para os trabalhadores apressados, era apenas mais um elemento comum na paisagem diária. Os animais a tinham como brinquedo e lazer.

A chuva, o sol e a lama - sem qualquer intenção, pois a natureza apenas segue seu curso - faziam dela uma maltrapilha: queimada, enlameada e entregue ao tempo, tornando-se cúmplices involuntários desse emaranhado de coisas abandonadas pelo caminho.

Mesmo sabendo que toda sobrevivência se parece mais com luta do que com dança, ela dançou!

Mesmo esquecida ao relento, venceu as intempéries da vida. Não foi destruída. Permaneceu intacta, sem rasgos, sem fissuras, sem qualquer dano às suas membranas, nervuras e ao seu limbo. Saiu vitoriosa diante das adversidades previstas e imprevistas deste mundo hostil.

Então, por um olhar sensível e por mãos acolhedoras, a folha caída na estrada foi recolhida e será levada para um belo quadro emoldurado.

Agora, já não é apenas uma folha caída. É uma sobrevivente. E tem histórias para contar.

Berenice Seixas

... fechando as águas de março
medida folha 39 x 20 

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